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Estava sentado, a tentar desfrutar do que fazia e no entanto estava irritado sem saber o que queria. Foi aí que me deu um vaipe e percebi, sem fazer caso disso, que aquilo já estava sem vida e eu não queria reparar nisso. Lembrei-me dos berlindes, das roupas e sapatilhas que outrora me levantavam num impulso de amante. Pensei nos computadores, aparelhos de som e profundos amores que alentaram a minha vida. Crescem cá dentro e vão sem a minha autorização.
Pois agora é diferente, assobio se me apetece, contemplo se me agrada e ponho o lixo todos os dias. Não quero ficar colado a gostos que já não saboreio e tão pouco me importa o paladar dos outros. Ninguém censura um jogador de bugalho de cem centímetros nem critica um velho incapaz por usar bengala. Ninguém o faz não e se o fizer é porque continua sentado no mesmo banco que eu também já estive.
25 de Maio de 2004, Covilhã, “Leões da Floresta”, 17:03 horas