Prosa 2002

inícioíndiceprelúdioalegroaforismo 1 . a casa aforismo 2 . o leão olho no pensamento dia direitinho desinteresse temporal dois olhos recompensa tardia matemática dos sentidos outro ângulo corpo humano senti a tua falta cabeleireiromusas com sucedâneo brado singelo

Comeno XXII - Cabeleireiro

É estranho quando se vive numa transição de gerações tão díspares. Sem querer ficamos atulhados em antinomias comportamentais.
Hoje, no cabeleireiro, reparei nas seis senhoras que tentavam com perseverança despertar o prazer da sua admiração nos outros.
Saí daquele antro de vaidade todo desgrenhado paguei para esfarraparem o meu cabelo. Faço-o sem más intenções, não é meu intuito ferir ninguém, mas está na moda e gosto de ser vanguardista.
Reparei como é agradável no século XXI esta liberalização tão ousada. É verdade, hodierno, uma mulher de família vai ao cabeleireiro, com os filhos na carteira para deleite do mundo e com o anel reluzindo um curioso repelente masculino, para fazer todas aquelas coisas que apesar de singelas dão graça ao que é belo mesmo que se mantenham as saias grossas em cintas descidas.
Eu aprovo, tenho é penha que não sejam mais arrojadas. Não deixo no entanto de rir baixinho ao reparar nesta drástica mudança de valores. Deixa-se de caluniar de "mulher pública" quem pinta unhas, cabelo e lábios e aceita-se passado trinta anos a dar a comunhão em plena cerimónia religiosa. Compreendo esta atitude, a vida é mudança mas porque vêem só a mudança deles e não aceitam a dos outros?
Olham para o que digo, penso e faço e longe de perceberem o meu comportamento arranjam respostas e explicações dentro de um mundo pequeno mas considerado imenso. Percebo que o façam mas não admito que à falta de abertura de alguém me qualifiquem com a pouca bagagem têm atribuindo-me sabonete quando uso champô com um aroma ainda desconhecido.