Prosa 2002

inícioíndiceprelúdioalegroaforismo 1 . a casa aforismo 2 . o leão olho no pensamento dia direitinho desinteresse temporal dois olhos recompensa tardia matemática dos sentidos outro ângulo corpo humano senti a tua falta cabeleireiromusas com sucedâneo brado singelo

Comeno XIX - Corpo Humano

Num dia de sol saio à rua sem vontade. Um zéfiro ar tocava todo o meu princípio imaterial e ao ver pessoas preocupadas com as coisas singelas da vida acordei a intriga para saber o porquê desta faculdade de sentir.
Estou só no café a ouvir a chuva que cai e a deleitar-me com a estrelinha que tenho em contraponto com a água que bate e escorrega pelas descidas íngremes da cidade entristecida.
Algo surge e se for nefasto o corpo humano cria um invólucro protector, uma crosta resistente disfarçada pelo corpo em qualquer lugar de modo a nele permanecer sem nunca o prejudicar. É uma questão biológica e muito interessante de analisar. Tenho algumas desses cápsulas, não físicas porque sou muito novo e cuido de mim mas das outras mais resistentes, invisíveis para os olhos e sentidos dos outros. Uns invólucros invisíveis que guardo na prateleira de madeira que arquitectei no meu peito, assim, quando o tempo sobeja olho o éter à volta e escolho com sensatez qual despertar.
Desfruto de tudo e quando chega o desapego enrolo esse sentimento em papel de veludo e coloco-o na estante. Por vezes incomoda mas se for demasiado inoportuno lanço-o na fornalha que existe na Serra da Estrela, no sanatório das trezentas e sessenta e seis janelas que tem tudo menos insanidade.
Longe do arrependimento assumo todas as minhas acções apesar de não ter aquela consciência generalizada que se fundamenta em princípios étnicos do local onde nascemos esquecendo que o mundo apesar de ser redondo pode-se abrir ficando mais acessível à compreensão.
Não gosto do globo, ele mostra apenas uma parte do mundo é imenso mas às vezes pequeno para as minhas ambições. Não pretendo ser astronauta mas questiono se em alguma das milhares de estrelas que vejo à noite não haverão seres que amam, contemplam e choram como nós, que sentem o cheiro do suor, esperma e sangue, que sorriem ao ver o nada que baçamente se intromete entre duas pessoas que se querem.
Tudo são sonhos para além da realidade, não procuro nos astros o que aqui mesmo está oferecido sem cansaço nem gastos de aquisição.
Vou parar, acho que basta, mas as ideias continuam impulsionadas pela inspiração de escrever, não consigo fechar a gaveta das prosas que sem querer me afloram no espírito objectivando uma aprovação ou comentário. Mas também escrevo porque me dá prazer e liberta, são ideias que tenho e quando as registo ficam mais consistentes tomando forma material. E ao saber que se lêem, que não são jogadas fora, escrevo-as e releio-as como se os meus olhos fossem outros e ligassem princípios de vida sentindo o que o outro sente.