Prosa 2002

inícioíndiceprelúdioalegroaforismo 1 . a casa aforismo 2 . o leão olho no pensamento dia direitinho desinteresse temporal dois olhos recompensa tardia matemática dos sentidos outro ângulo corpo humano senti a tua falta cabeleireiromusas com sucedâneo brado singelo

Comeno V - Aforismo II . O Leão

Estrondeia o leão forte e majestoso. O rato já nem tanto anda sempre metido no seu buraco como se devesse algo a alguém, tem a ideia que não é gente e esconde-se sempre descontente.
E ambos assim vivem conformados com eles próprios indiferentes aos rumores asseverantes de que nada importa.
Esta é a realidade do rato, se for preto claro, porque se for branco já é amado. Parece uma questão de cor mas não é, está na natureza do seu meio, preto foge, branco mostra-te na montra da avenida.
Numa metamorfose imaterial o leão permuta com o rato, branco ou preto tanto faz. Grande confusão no reino animal e na montra da loja ao dobrar a esquina. Eu parava para observar um rato a mandar na selva e fugia ao ver um leão no meu armário à procura do meu queijo.
Vejo em cidades, em vilas e em aldeias combates de leões e sucessos inexplicáveis de ratos. Um leão ao querer ser rato inala um aroma humano e alheio à natureza mas também não há mal nenhum em ser um pequeno quadrúpede de cauda comprida e focinho bicudo. A vida é como um balão cheio de água, tanto encaixa na minha mão como na tua.
Algo no nosso âmago nos coloca em repouso e nos desvia da necessidade. Eu tenho, tu tens, o insecto que ali está também tem e às vezes parece que está no próprio ar entrelaçando-se em tudo com vivacidade e encanto.
Encontro no entanto pessoas intricadas por dentro, apagaram o seu estéril crepúsculo e transformaram o seu mundo numa cerimónia fúnebre. São felinos a querer ser roedores ou roedores à procura do poder real.
O leão é impetuoso e se quiser abafar isso, porque admira a humildade da gaivota, a submissão do vitelo ou a presteza da enguia perde força e confiança, oculta-se e desvanece-se porque a vida não sustenta destas manifestações desviadas.
Um ser forte e impetuoso sabe lidar com isso porque é a sua natureza.
Espero sempre um ratinho feliz mas pode ser gato, cão ou outro animal qualquer. Desprezar o que se é desfalece aos poucos a vida, com dores de cabeça, de costas e de alma.
Continuo a encontrar pessoas inimigas de si próprias, no palco do mundo calam a vingança e exaltam a brandura para recolher a medalha pública do controlo do homem. Depois, espezinhando a jactância, descem desse pódio mundano forçando pensamentos glorificantes da sua humildade. E perdem a fluidez, claro, abafam o seu interior de tal forma que a sua embarcação perde o vigor, perde a paixão, e ninguém gosta de viajar num barco que depende da maré ou de qualquer brisa ténue para oscilar, para borbulhar, para alentar a sua existência.
Eu meto tudo no seu sítio e quanto mais afastado estiver, umas coisas na proa outras na ré, mais eu olho para cada lado e os vejo felizes porque são meus, amo-os e aceito-os a todos. Olha ali a incerteza e a prepotência a saltar de mão dada com a empáfia.
Ouço o desleixo a gritar com a responsabilidade. Ouço-os porque essas coisas estão cá dentro mas nem reparo de que lado o grito vem. Saltam tão alto, a reclamar em voz alta com o megafone que ofereço a tudo o que tenho dentro, que sou impelido a olhar e a obedecer sem delonga.
Vou embora, tenho coisas a fazer, desleixo-me mais logo à noitinha.