Estava sentado, a tentar desfrutar do que fazia e no entanto estava irritado sem saber o que queria. Foi aí que me deu um vaipe e percebi, sem fazer caso disso, que aquilo já estava sem vida e eu não queria reparar nisso.
Estava sentado, a tentar desfrutar do que fazia e no entanto estava irritado sem saber o que queria. Foi aí que me deu um vaipe e percebi, sem fazer caso disso, que aquilo já estava sem vida e eu não queria reparar nisso.
Ao saborear o ar limpo alguém se queimou no mais sujo. Diz lá como foi, é que sem ver não posso crer, diz aos ouvidos mais abertos que o ar sujo é para os potes mal pensados, para os bobos desenterrados da ilusão da juventude.
Que truque de segunda preparar o dito para o transformar em bendito. Adoçante de cacau que me ralhas de mau, carro sem janelas com assentos de selas a viajar numa veia a uma orelha para espiar o injusto como se fosse um boato cusco. Fechar esta expressão anormal de uma forma singular. Desacreditar as rimas que são todas inimigas e trabalhar o vivido para melhorar o que é seguido.
Nunca compro nem vendo uma experiência
garanto, nem uma, nem duas, nem três
esse negócio só pode dar falência
ninguém sofre, ninguém ama em nossa vez.
(hendecassílabo)

Neste momento fecundo,
lembro-me de outras coisas do mundo,
sem fel nem asfalto vagabundo.

Ininterrupto persigo os meus passos e depois fujo deles receando os coices secos da sorte. Ferraduras partem a minha audácia, recupero e de novo fico hirto, sem músculos na face, sem valor no peito, sem poder de sobressair.

Reparo em esboços deste mundo, quadros malfadados e de cores virulentas decorados com a retrógrada ideia da perdição humana. Esquecem o céu que reflecte todos os sorrisos humanos e as nuvens brancas lançadas pelos poderosos sonhos dos ousados. Critico tais pintores e seus fãs. Este quadro não me agrada! Juntei algum dinheiro e comprei tintas mais vivas. Depois, cravei os olhos no mundo e com o meu arredio feitio cobri uma tela com um aspecto bem mais aprazível.

Dia em estado alegre de existir
numa normal graça imposta por um bem-estar afortunado.

Neste acto simples despeço a superficialidade,
de saco às costas a saborear a anatomia do bom senso.

Tudo é imperfeito na busca da mortalidade sem vícios.
Tudo é perfeito na busca da imortalidade com vícios.

Nestes dias primaveris, onde a hora adianta por uns meses e que coincidem com a lua de luz redonda, apetece-me ficar a olhar gandaiamente as historietas da natureza humana que andam enroladas, com muito engenho, nas pronúncias regionais, nos repuxos das fontes modernas, no néctar dos frutos mais suculentos, nas frases ditas com palrarias válidas, nos mimos, nas jigajogas, em fraques escuros, nas hortaliças velhas, em prognósticos inalienáveis e nas conjecturas unânimes de bonifrates autónomos.

É mais fácil escrever com tanques de metáforas
e ramos de alegorias
para expor de forma clara
o que por vezes não é assim tão evidente.

Se fujo das palavras elas perseguem-me.
Agarro-as e a minha atenção envolve e pensa.

Rasgar as teias para bloquear as veias, não respirar para evitar o constar. Transluzir o agora por detrás do escrito, remédio bendito nas palavras que dito. Emendar o erro que não sei se incorrecto ou se pouco mal feito.

São as cores que acedem às emoções e as misturam aos somatórios de gracinhas diversificadas.

Fácil é deixar a vida saltar como um voo de mosca,
por entre momentos agonizantes de sentimentalismo.

Que tamanho sentido existencial o imortal da criatividade demarcado da realidade.

Prefiro um murro e uma flecha no peito
que a vista dum templo com defeito.

Caem no meu espaço e misantropo arquivo espólios num oculto campo no regaço. Volto-me emergente e bóio incoerente. Contesto a falta de revolta. Alongo as pernas e nada me mata, nada me sacode desta esfera
corrida de sins.

Um refresco de indisciplina pinga e a agenda
cai directa num invólucro de discórdia.
Coxeio na rasteira para fugir à ratoeira
e espreito a vida para não bocejar em caçadeira.
Preparo o escudo e aprendo suicida.
Vulgarizo blasfémias, brumo cínico, vingo clínico.
Custa-me ver o dia desaparecer
sem um registo que o glorifique.
nos meus olhos um funil sempre rodado
o campo de visão muda, está louco
o que é belo fica gigante, ampliado
e o feio menos feio, menos um pouco.
(hendecassílabo)
O braço em vaivém e o tempo dá o que tem, enquanto rendo voos de serrote num tapete sem archote.
Recordar é amar-me endeusado.
Amargos cardos à vontade rolam! Eu, atento, continuo completo, o meu ser sou eu, o meu eu repleto. Distrai de prosa cai no metro. Não acertes. Ponto final de cinco em sete palavras e desmarcas a medida. Isso, escreve suave e sem escala! Digo escrúpulos, folo em júbilos, descrevo formas em cambalhota sem gravidade que me aperte.